Crescer ao ar livre

Um dia uma amiga disse-me que a filha andava num infantário ao ar livre.

“Como assim, ao ar livre?”

“Assim: só está num local interior se estiverem a chover canivetes.”

A minha cabeça entrou num rebuliço. E quis saber mais. E a minha bela profissão ajudou-me a fazê-lo. E descobri que existem em Portugal projetos que se inspiram nas escolas da floresta nórdicas (sabem, aqueles países onde a educação é top?). Meninos que rebolam na terra, constroem cozinhas de lama, se molham na chuva, colhem vegetais e…. dormem a sesta ao ar livre!

Fui descobrir um desses projetos em Coimbra. E não, não estamos a falar de macacadas hippies (ainda que sejam altamente). Estamos a falar de um projeto criado pelas universidades de Coimbra e Aveiro e que está a ser rigorosamente monitorizado. Limites Invisíveis – é assim que se chama. E é incrível ver o que os miúdos aprendem e criam! E acima de tudo a enorme alegria deles. É de tal forma incrível que um dos meus colegas que lá esteve até ficou com vontade de ter filhos (certo, Ricardo?).

E depois reflito sobre a creche da minha filha e em como eu e o meu marido parecemos maluquinhos sempre que perguntamos: “hoje está sol, os meninos não vão lá para fora?”.

Eu adoro as pessoas que cuidam dela, mas este sistema educativo erguido dentro de quatro paredes não me agrada. Os meninos precisam de aprender a estar no exterior, a criar defesas, a imaginar brincadeiras com paus, ervas, flores e bichinhos. A deixar IPads para os adultos, a sentir a chuva na pele. E nós pais, temos de aprender a viver assim também.

P.S. – vejam o Biosfera no próximo sábado na RTP2 e tirem as vossas conclusões.

Forest school

Foto tirada de Schola Foris

 

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Cinzento

Não passo a roupa dela a ferro muitas vezes (quase nenhuma vez, na verdade!); não consigo criar refeições novas e nutritivas todos os dias (nem 5 dias por semana, na verdade); não tenho uma casa arrumada 99% das vezes ( o 1% devo-o à minha mãe); não tenho o quarto dela decorado como sempre imaginei; não consigo fazer com que durma uma noite inteira seguida; não consigo fazer com que durma na cama dela uma noite seguida; não consigo mudar-lhe uma fralda sem que haja resistência e berreiro (já estamos a melhorar bastante, vá!); não consigo vesti-la sem que haja resistência e berreiro (também registamos melhorias nesta matéria); não consigo ir ao ginásio; não me depilo com a frequência que devia; não tenho energia para dar a atenção devida ao marido; não me maquilho, não ponho creme de corpo nem creme de noite; não cuido de mim como devia; não lido bem com as angústias; não consigo dar tanto quanto dava ao trabalho; não consigo abstrair-me muitas vezes do cansaço; não sou a super mãe – mulher – amante – profissional que queria ser.

 

Brinco todos os dias com ela; dou-lhe abraços e beijos e digo-lhe que a amo todos os dias; lemos livros juntas; construímos torres de legos juntas (eu construo, ela destrói); dou-lhe colo sempre que sinto que precisa; ensino-a a comer sozinha; exploramos sítios e sabores novos juntas; deixo-a explorar e tentar vezes sem conta; criamos hábitos e rotinas novas os três; adapto-me às necessidades dela; tento respeitar os seus timings; esforço-me por lhe dar a melhor alimentação possível – biológica, variada, com textura real, sem açúcares adicionados, sem sal, sem processados e aditivos – e diria que até consigo (não tanto quanto deveria, mas enfim); limpo e arrumo o que consigo; esforço-me por mostrar que ele é muito importante para mim (mesmo falhando muitas vezes); crio momentos só para os dois; empenho-me o mais possível no meu trabalho; esforço-me para que o trabalho faça sentido para mim e para os outros; continuo a achar-me bonita e a ter esperança que vou cuidar melhor de mim; esforço-me por aceitar os meus erros e falhas ( sem muito sucesso a maior parte das vezes); sou a melhor mãe – mulher – amante – profissional que consigo ser agora.

 

Uma espécie de mantra. O mundo não é só preto, nem é só branco. Pinta-se em tons de cinzento.

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by Carlos Oliveira

Anjo bom

Há pouco disseram que eu era um anjo bom da gravidez ( quero acrescentar que acho que da maternidade também). Ou seja, sou positiva a falar quer de um período, quer de outro. Relativizo as dificuldades, realço os pontos bons.

Fiquei contente por passar esta imagem.

Posto isto, quero aproveitar este momento para ser sarcástica e queixar-me. Apetece-me, vá! E aqui ficam umas mensagens que vagueiam na minha cabeça de vez em quando. Para aqueles que se queixam muito.

Quando me dizem/O que eu penso sobre isso

“Ai, o meu filho dorme a noite toda, mas tenho de o adormecer ao colo!”/ O teu filho dorme a noite toda!

“Ai, ontem o meu filho acordou duas vezes” / A minha acordou cinco :/

“Isto é complicado, porque ontem ela acordou às 4 da manhã e só adormeceu passado uma hora” / Quem em dera que as minhas noites fossem só isso!

“Eu e o meu marido fazemos estafetas durante a noite. Na verdade dormimos por turnos”/ Quem me dera que a minha filha não armasse o caos quando vê o pai durante a madrugada.

“Ela só quer a chupeta durante a noite”/ A minha só quer a mama.

“Comigo corre tudo bem, porque eu sigo todas as rotinas”/ Eu também sigo todas as rotinas e corre quase sempre tudo mal.

“Tens que a deixar chorar”/ Não, não tenho. Não tenho essa capacidade ( talvez se atingir um outro nível de desespero). Não quero fazer isso.

 

Como sou um “anjo bom” ( agora vou guardar esta para mim, sempre que me sentir em baixo!), não posso deixar de dizer três coisas: vale a pena, vale muito a pena, só para a ter; sei que vamos encontrar uma maneira de contornar esta adversidade; lá porque eu tenho esta experiência não quer dizer que os outros pais também a terão.

 

Que mundo é este, em que te estou a criar?

Meses de ausência tem duas justificações: cansaço e incerteza.

O cansaço é esmagador: uma filha que não dorme três horas seguidas durante a noite há quase um ano rebenta com quase todas as forças. Vai-se o discernimento, a criatividade, a vontade de tudo e mais alguma e até o peso (demasiado!).

A incerteza prende-se com uma questão ainda mal resolvida em relação ao blogue. Nasceu como um blogue de preparação de um casamento. Fará sentido viver, transformando-se noutra coisa? Desisti de pensar sobre isso. Talvez no futuro lhe mude o nome. Por agora, dou-lhe apenas uso para o que realmente interessa: partilhar.

Volto porque valores maiores começam a agigantar-se e a sobrepor-se ao cansaço. Para que os percebam, é preciso que eu conte uma história.

Há um ano e meio decidimos “limpar a cara” ao pseudo-jardim lá de casa ( na altura parecia uma selva – hoje está um pouquinho melhor). Contratámos um jardineiro para cortar o mato e semear relva. Mas a minha maior preocupação era saber como é que o jardineiro iria fazer o seu trabalho – que técnicas e produtos iria usar. Numa conversa por telefone, disse-lhe claramente que não queria que aplicasse herbicidas no meu jardim. Do outro lado, um pouco incrédulo, ele respondeu-me que tudo era muito seguro e que se ele não os aplicasse, em pouco tempo as ervas daninhas iriam voltar. Isso não me importava. Não queria herbicidas na minha casa.

O meu pai chamou-me fundamentalista. O meu marido disse-me que estava a fazer uma tempestade num copo de água. Eu sabia que estava a fazer o correto, embora algo insegura.

Estava grávida de 6 meses. Isso significa estar mais vulnerável do que em qualquer outro momento da minha vida e responsável por um bebé que estava a crescer dentro de mim. Sabia, pela minha profissão enquanto jornalista, que a exposição a pesticidas é nefasta para a saúde, mesmo em pequenas doses. Sabia que muitos estudos científicos recentes demonstram que a exposição a pesticidas afeta o desenvolvimento de um bebé ainda na barriga. Sabia isso tudo e não estava disposta a abdicar disso para não parecer fundamentalista.

Hoje, em vésperas de lançar um trabalho de fundo de investigação que vai tocar neste ponto, tenho a certeza de que fiz o correto. Quando nos tornamos mães tudo se torna mais urgente e este para mim, é um assunto muito urgente: estamos a criar as nossas crianças em ambientes saudáveis?

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Um dia terei um jardim assim

As palavras que nunca esqueceremos

Perdoem-me a adaptação foleira do título daquele livro de que todos já ouvimos falar, mas é mesmo disso que trata este texto. E vamos já pôr os pontos nos is: tudo, ou quase tudo, que nos dizem sobre o nosso bebé nos primeiros dias de vida, tende a ficar marcado em nós durante muuuuito tempo (não digo para sempre, porque não posso assegurá-lo, mas pressinto que assim seja).

A Maria Rita nasceu faltavam cinco minutos para a meia noite ( no momento em que escrevo faltam poucos minutos para ela completar cinco meses de vida!). Vinha desperta, curiosa, de olho aberto, sem muito alvoroço.

O parto foi maravilhoso. Ela nasceu em cinco minutos (literalmente). Já o pós-parto foi terrível: desmaiei, vomitei, perdi litradas de sangue. Quando ela veio a mim para mamar pela primeira vez, eu estava muito debilitada, e embora ela tivesse uma capacidade de sucção fabulosa, foi-me difícil dar-lhe de mamar. Ou melhor, foi sempre uma luta dar-lhe de mamar até à subida do leite. Por algum motivo, a minha mama parecia vazia e ela tinha dificuldade em agarrar o meu mamilo. Queriam dar-lhe um biberão na primeira noite. Resisti.

Na segunda noite, acordei-a para lhe dar de mamar (ela raramente acordava para mamar), e depois de uma hora com ela, uma enfermeira chegou até mim e disse: “está há tanto tempo com ela na mama, ela só pode estar com cólicas. Deve estar afrontada”. Pegou nela e levou-a para arrotar. Eu esgotada, esperei que ela voltasse. Quando chegou, disse-me que ela tinha arrotado várias vezes, que estava afrontada, que a deitasse. Fiz isso. Passado pouco tempo, a minha filha chorou novamente.  Dei-lhe de mamar. Ela chorou mais. Uma outra enfermeira disse-me que eu não descansava há muitas horas, que não devia estar a alimentá-la o suficiente. Chorou nas horas seguintes. No desespero, o biberão. Não a calou por muito tempo.

Porque é que este relato é importante? Porque as expressões “está afrontada” e “o leite não sustenta” nunca mais saíram da minha cabeça.

As primeiras noites em casa foram terríveis. Ela chorou durante horas seguidas. E ora eu dizia ao Carlos ” ela mamou há meia hora e não arrotou, só pode estar afrontada!”, ora me lamentava meia hora depois com “o meu leite não a está a sustentar, só pode!”

É bem provável que eu tenha negado leite à minha filha por causa do “estar afrontada”. E isso dói profundamente. Nunca a deixei chorar por muito tempo, é certo, e nunca a deitamos na cama e a deixamos chorar, mas atrasamos várias vezes a ida à mama, porque “era impossível ela já estar com fome!”. Só dias e semanas mais tarde me falaram dos picos de crescimento e de como os bebés têm capacidade para gerirem o leite como ninguém. Se não vomitava, não comia em excesso! Confesso que demorou muito tempo a aceitar isto. E quando estamos exaustas e sem dormir há inúmeras horas, isto não nos parece certo. Para mim, os bebés deviam comer de três em três horas e pronto! Era assim que eu tinha ouvido a vida toda! Por causa disto, eu devo ser das mães que mais pesaram os seus filhos nos primeiros meses de vida. Nas semanas em que ela comia como uma desalmada, eu corria para o centro de saúde a pensar que o meu leite estava fraco. Só houve uma semana em que ela não aumentou o mínimo requerido (a semana em que eu testei deixá-la dormir à vontade, sem a acordar para mamar). Nas outras, esteve sempre dentro do padrão dela. Em algumas, roçou o topo da escala, espantando tudo e todos. Engordou sempre e isso é que importa. É uma bebé super saudável.

Tentei preparar-me para muita coisa durante a gravidez, mas não me preparei para as palavras que ouviria e que fariam ressonância dentro de mim. Eu sei que aquelas duas enfermeiras tinham boas intenções, apesar de, quase de certeza, estarem ambas enganadas. Ainda hoje não sei porque chorou tanto a minha filha naqueles primeiros dias, semanas. Talvez tivesse fome e quisesse comer, talvez tivesse cólicas ou simplesmente estivesse apenas a gritar a quem estava por perto que não conhecia aquela realidade e que estava assustada.

O certo é que para uma mãe de primeira viagem, insegura, quase tudo o que nos dizem é absorvido como uma esponja. Pode ajudar, mas também pode causar estragos.

E muito mais há a dizer sobre este assunto, mas vou ali cantar baixinho os parabéns à minha pipoquinha.

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Quatro meses de férias

Uma semana depois do nascimento da Maria Rita, cruzei-me com uma tia-avó que, logo após ver a princesa, me perguntou: e quanto tempo vais ficar de férias? Ora, eu rapidamente corrigi: não são férias, é licença de maternidade. Pouco adiantou. Reparei na cara dela que os dois conceitos eram a mesma coisa. Não são! Não são mesmo! O cansaço, a desorientação e a sensação de incompetência não fazem parte do meu conceito de férias. Sentimentos-sombra. Volta e meia aparecem para me lembrar como isto tudo é novo.

Li num artigo que as mães levam quatro meses a adaptar-se à nova realidade. Não sei se as contas estão certas. Para mim, a adaptação é diária. O que dá certo num dia, no seguinte já não dá!  Para piorar, a minha filha que, durante meses, dormiu horas intermináveis de noite, agora acha que maminha durante a noite é que é.

O que é certo é que parece haver uma espécie de novo capítulo aos quatro meses. Como se aceitássemos não ter todas as respostas e vivéssemos um pouco melhor com isso. Além do mais, o importante é rir-me com o tagarelar rouco dela – três dias a falar pelos cotovelos puseram-na rouca ( diz que é normal nos bebés que começam a palrar)!

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Os meus amores

Romã = amor

Acabei de cortar uma romã ao meio e tudo veio à memória. As romãs farão sempre parte da minha vida.

5 de janeiro de 2014. Passei o dia enervada. Liguei-te à saída do trabalho.”Não passa de hoje! Vou comprar um teste!” Durante duas semanas não me “deixaste” fazer o teste. “Isso é coisa da tua cabeça”, dizias.

Cheguei a casa. Estavas a adiantar o jantar. Fui até ao quarto. Bastou um segundo para mudar de cor. Chamei por ti. “Não posso! Tenho o refogado ao lume.” Gritei outra vez. “Vou queimar as cebolas!”. Fui até à cozinha a chorar. “Deu positivo.” Vieste até mim com um sorriso enorme e abraçaste-me. “Vai correr tudo bem.”

Sentámo-nos à mesa. Eu incrédula. Tu sereno. “Não te esqueças. Hoje é dia de Reis. Temos de comer romã para que o ano seja de sucesso.” Sorri. “Eu já tenho uma romã. Uma romãzinha.”

Depois tentámos tirar fotografia bonitas com uma romã. Nenhuma ficou particularmente bem. Postei uma no Instagram. A que hoje relembro.

Eu sei que romã não é a palavra amor ao contrário. Mas para mim, para nós, uma não existe sem a outra.

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Sim, sou mãe

Existem muitos sins e nãos nas nossas vidas. O que decidimos ser e fazer depende do ato de aceitar ou rejeitar um caminho.

Há um ano, um ser pequenino crescia dentro de mim. A passagem do ano foi aliás o primeiro evento em que eu, ainda incrédula com a gravidez, comecei a agir de forma diferente…evitando o álcool, mas brindando na mesma para que ninguém desconfiasse!

Dizer sim a esta nova realidade não foi fácil. Explicando-me: há muito tempo que ansiava ser mãe, mas tinha planeado esperar mais uns meses. E na minha cabeça de control freak, aquela súbita gravidez entrou como um terramoto. Os medos apoderaram-se de mim como um vírus: eu não estava preparada, não sabia ser mãe (seja lá o que isso for!), não tinha feito todos os testes, não tinha estudado tudo sobre a maternidade! ( ainda era uma ervilhinha e a minha filha já me ensinava que não se pode ter controlo sobre tudo!)

Demorou a deixar o medo ir. Como diz Morrie: “permite-te sentir todas as emoções e depois deixa-as ir.” Aos poucos fui deixando que ela tomasse conta de tudo em mim: dos meus pensamentos, dos meus sorrisos, dos meus sonhos, do meu coração.

Vivi uma gravidez plena e feliz. Um estado de alegria constante que desejo a todas as pessoas. Tive muitos momentos felizes, ridículos, engraçados, emocionantes! Curiosamente, pela primeira vez na minha vida, quis guardá-los para mim e para os que me são mais próximos. Na verdade quis guardá-los para ela. Mostrei imagens, retive as palavras.

Quase quatro meses depois da Maria Rita ter nascido, cada dia amanhece com a mesma pergunta: estás pronta para dar mais uns passos neste caminho? E eu respondo sim. Mas muitas vezes apetece dizer não. Depois de uma noite mal passada, por exemplo. Depois de um dia de cólicas. Ou quando estás tão doente que tens de fazer uma nebulização e só podes pegar na tua filha com máscara. ( que fim de ano este!). Mas depois lembras-te que até no paraíso há pedras em que se tropeça e não é por isso que o cenário deixa de ser absolutamente deslumbrante.

Em dia de balanço, ela é o melhor do meu 2015  e seguramente de todos os anos que hão de vir. ( mesmo quando demora três horas para adormecer!). Sim, sou mãe, embora ainda não o saiba bem ser. Talvez daqui a 50 anos possa passar no teste com distinção.

E assim, quase um ano depois, este blogue deixa de ser sobre o meu casamento e passa a ser sobre tudo em mim.

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Casamento de sonho?

Há pouco perguntaram-me: O teu casamento foi de sonho? Hesitei, sorri e disse: “Não sei se foi de sonho, foi o meu. Foi especial e único, isso sim. Mas não me parece que tenha sido de sonho”.

Estive durante os minutos que se seguiram a pensar no que tinha dito. Teria eu menosprezado aquele dia tão especial, ao ter respondido daquela maneira? Deveria eu ter dito logo que sim, que apesar dos imprevistos, que foi um dia de sonho?

Estava há 10 minutos a flagelar-me por ter dito o que disse. Por poder ter dado a entender que não foi maravilhoso, ao não usar a expressão “de sonho”.

Respirei. Concluí: Não, não foi de sonho. De sonho seria se tivesse viajado para a Toscânia para o celebrar, se o registo fotográfico tivesse durado uma semana, se tocassem orquestras nos momentos certos, se Úria lá tivesse estado, se o Zambujo o tivesse acompanhado, se o Stevie Wonder irrompesse pelas cortinas do palacete (!) e começasse a cantar, se o sol tivesse brilhado todo o dia, se a temperatura do dia fosse a ideal para cada momento, se houvesse lagos de lagostas e camarões ( já descascados, por favor!), se eu calçasse uns Louboutin e vestisse um Oscar de La Renta, se tivéssemos feito uma lua de mel de dois meses pelos trilhos africanos e asiáticos, se, se, se, se,…. Isto é o sonho. O conto de fadas. A treta que nos impingem durante décadas de infância e adolescência. E à qual as pessoas mais vulneráveis ( guilty! ) não conseguem fugir.

O meu casamento não foi de sonho, porque os sonhos estão lá no plano do imaginado. O meu casamento foi real, com desafios reais, com imprevistos reais, com gargalhadas, abraços, beijos, lágrimas reais. Com um vestido que anseio poder voltar a vestir. Com uns convidados top. Com um registo fotográfico e filmográfico maravilhosos. Com aquele marido, aquela família e aqueles amigos. Foi único, porque foi nosso. Foi incrível, porque foi nosso.

Não foi de sonho. Esse fica para a outra vida. E sim, eu mudaria alguma coisa no dia e não há mal nenhum nisso!

Foto de João Pádua

Foto de João Pádua

Era hoje, era hoje!

Vou voltar. Tenho que voltar. Ainda não sei bem em que moldes. Talvez, apenas…voltando. ( Mais para a frente falaremos sobre isto).

Mas hoje é dia de voltar ao que foi e que nunca deixará de ser dentro de mim.

Há um ano, um grupo de malucas arranjou um descapotável – um veículo state of the art ( not ), clássico ( lá chegará ), lustradinho ( hmmm… ) – e irrompeu pelo parque de estacionamento traseiro à minha antiga casa, aos berros, com a ajuda de um belo megafone. Gritavam “é hoje, é hoje, é hoje!”. E foi.

Vestidas de branco ( como manda a ocasião ) e barulhentas ( como é imagem de marca ), ainda tiveram tempo de procurar comigo o anel de noivado que eu jurava ter colocado em cima de uma mesa e que “alguém” devia ter tirado de lá! ( só podia, certo? ). Desistimos ao fim de meia hora. Uma reza ao Santo António e ele havia de aparecer. E é claro que apareceu. Só não me lembro se foi no mesmo dia…

Não sei se era um Ford ou um Opel, mas levou-nos até ao mítico centro comercial Brasília. Eu achava que ia começar o dia com uma massagem. E foi. Uma massagem mental numa taróloga!!! Porquê? Não sei. Acho que ninguém sabe bem o que lhes passou pela cabeça. Mas bem, a senhora disse-me duas coisas muito importantes: para eu ter muuuuita paciência com o meu futuro marido e reforçou esta ideia muitas vezes; e que via fertilidade em quase todas as cartas. Confere!

Veio o almoço, as prendas inusitadas – o São João de caco! – e a mais bonita – uma planta para cultivar ( não é isso que fazemos sempre que dizemos sim a algo?).

Não me esquecerei de um senhor que me apareceu ao fim da tarde. Vestia lycra e spandex e gritava “sexy, sexy”. Até hoje estamos sem saber o conceito de “sexyness” daquele dito professor de dança.

Da noite, lembro da má-língua ( sempre saudável! ), da confirmação da gravidez da Margot ( felicidade pura! ), dos petiscos maravilhosos da Tasca, dos cupcakes manjericos maravilhosos da Laura, das quadras são joaninas que cada uma me escreveu, da Anabela sentada no mini palco de um bar a ensaiar uma espécie de polka russa, mas sentada ( se conseguirem visualizar, dou-vos uma prenda! ).

Da tarde, ficam as fotos. Captadas pela maravilhosa amiga Sofia Miranda, que acabou de criar com outra grande amiga, a Joana Deusdado, a Lemonview.

Para sempre ficam os vossos sorrisos e afetos. Sois todas muito especiais. Que possamos repetir estes momentos mais vezes, sem que haja pretexto oficial. Obrigada!

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P.S.: Desde já as minhas desculpas ao proprietário do descapotável.

Para verem mais do dia e do trabalho da Lemonview, vão a www.cargocollective.com/lemonview